quinta-feira, 9 de maio de 2019

Doentes crônicos enfrentam o drama da falta de remédios

Dos 134 medicamentos que o Ministério da Saúde tem que comprar e distribuir para os estados, 25 estão em falta ou com entregas insuficientes e 18 têm estoques baixos

Doentes crônicos enfrentam o drama da falta de remédios

Milhares de brasileiros com doenças crônicas ou graves estão sofrendo com a falta de medicamentos caros na rede pública de saúde.

Quando o risco é de sentir muita dor, perder movimentos, o que resta da saúde e até a própria vida, o desespero é grande. “Você está sempre assim: ‘Meu Deus, será que eu vou perder o rim? Será que vou perder meu transplante? Será que vou perder o enxerto?’ Porque essa insegurança não dá, né? Todo tempo isso”, conta a aposentada Dorca Lemes.

E tem sido essa tristeza diária nas farmácias de alto custo, aquelas que fornecem medicamentos para doenças crônicas e graves, remédios que a maioria não pode pagar.

“A sensação que eu tenho é que eu estou perdendo meu pai porque o governo não dá o remédio que ele precisa”, diz a dona de casa Maria Gabriela Lorenzo. “Muito sacrifício. A gente já tentou comprar o remédio, mas é muito caro”, lamenta Maria Terezinha de Jesus, de 71 anos.

O tratamento para esclerose múltipla do vigilante Marcelo Grulke custa R$ 7 mil por mês. Em abril ele ficou sem o remédio que evita ou retarda o avanço da doença. “O temor que tenho é ficar sem esse medicamento de vez, é perder a visão, perder os movimentos, ter que ficar de cadeira de rodas. É muito triste isso”, revela ele.

Já houve tempo em que a falta de um ou outro medicamento poderia ser suprida com uma compra de emergência e até com a camaradagem entre os estados. Se um tinha estoque, despachava para outro que estava sem. Só que agora a falta de remédios de alto custo, fornecidos pelo Ministério da Saúde, é geral. Uma situação crítica em praticamente todos os estados do país.

A dona de casa Tatiane Alves percorre 30 quilômetros para pegar, no Recife, o medicamento para o marido que é transplantado: “São três meses que não tem. Tá aqui o cartão".

Para o aposentado José Roberto Souza, o que falta é o remédio para o diabetes. É básico, mas também fornecido pelo ministério: “Já tenho uma amputação na perna devido à diabete descontrolada. Quando consegui, de oito anos para cá, controlar, a medicação para controlar ela não tem”.

Em Cuiabá, a dona de casa Jaqueline Lisboa não tem como melhorar de uma grave hipertensão pulmonar: “Não consigo nem levantar. É difícil vestir uma camiseta, é difícil vestir um sutiã, é difícil pentear o cabelo, é difícil para amarrar”.

Dos 134 medicamentos que o Ministério da Saúde tem que comprar e distribuir para os estados, 25 estão em falta ou com entregas insuficientes. Outros 18, com estoques muito baixos.

“No momento em que eles faltam na prateleira, deixam de ser um problema meramente administrativo ou da assistência farmacêutica para se transformar numa crise humanitária. E essa crise de abastecimento não pode perdurar sob pena de nós termos graves consequências para os pacientes em todo o país”, afirmou Alberto Beltrami, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conas).

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, diz que encontrou o ministério com alguns estoques de remédios zerados e outros, com o mínimo necessário. E que vai mudar o esquema de compra trimestral para anual.

“A gente pretende zerar o desabastecimento no mês de maio e ter um fôlego de abastecimento contínuo. Ter, na sequência, um estoque regulador para essas medicações; não ter o desperdício, não ter o ‘a mais’ e não ter o ‘a menos’”, declara.