segunda-feira, 29 de abril de 2019

Falta de remédios para quimioterapia afeta pacientes com câncer em hospital público de Campinas

Hospital Municipal Dr. Mário Gatti está com 8 substâncias em falta há cerca de 20 dias. Prefeitura afirma que medicamentos devem ser disponibilizados em até 10 dias

Recepção do setor de oncologia do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti | Foto: Luiz Granzotto/PMC

O Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas (SP), está com 8 medicamentos para quimioterapia em falta no dia 25 de abril. As substâncias são usadas no tratamento de pessoas com diversos tipos de câncer pelo SUS, e não são disponibilizadas desde o início do mês. A Prefeitura confirma o problema e diz que os remédios devem ser repostos em até 10 dias.

"A falta dos medicamentos se deu por conta de problemas no processo de compra, que é feito por meio de licitação pública", justifica a Rede Mário Gatti, por nota.

"Dependo desse tratamento para ter a minha cura. Se eles sabiam que a medicação não ia dar para todo o mês, porque não fizeram a compra antes? Um dia pra gente é muito importante. Você pode ter uma regressão", contesta Adriana Amorim, paciente com câncer de mama.

Lista de medicamentos em falta

  • Bleomicina (em falta no mercado)
  • Anagrelida
  • Metotrexato 50mg
  • Ciclofosfamida 50 mg
  • Ciclofosfamida 200 mg
  • Metotrexato 1000mg
  • Tamoxifeno 20 mg
  • Paclitaxel 150 mg

No caso de Anagrelida e Metotrexato 50mg, o processo de compra é emergencial, pois, segundo a Prefeitura, "na licitação não houve empresa interessada no fornecimento dos produtos, o que possibilita a compra direta".

No caso da Bleomicina, a Prefeitura ainda não se posicionou sobre qual seria um substituto.

Medicamentos já repostos

Nesta semana, outros remédios chegaram a ser relacionados em uma lista exposta no hospital sobre substâncias em falta, mas, segundo a administração municipal, já foram repostos. São eles:

  • Daunorrubicina (está em falta no mercado, mas foi substituído por Mitoxantrona)
  • Docetaxel 20
  • Docetaxel 80
  • Carboplatina 450 mg
  • Cisplatina 50
  • Cisplatina 100

Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas (SP), está com medicamentos para quimioterapia em falta | Foto: Reprodução/EPTV

Pacientes afetados

A Prefeitura não informou quantos pacientes tiveram o agendamento de sessões de quimioterapia cancelados. Disse, em nota, que "não é possível dimensionar, uma vez que a agenda é dinâmica e a interrupção do tratamento pode se dar não só por falta de insumos, mas por questões clínicas do próprio paciente".

Aos 45 anos, a auxiliar administrativa Adriana Amorim foi surpreendida pela notícia da falta do remédio quando chegou para a sessão agendada, no dia 24 de abril. Ela tem câncer de mama, já passou por cirurgia e esta era a última das quatro sessões do seu tratamento. Adriana depende do término para iniciar a radioterapia.

"Não foi só eu, foram várias pessoas. Só soubemos na hora que a gente entrou para a consulta", conta.

Adriana Amorim faz quimioterapia no Hospital Mário Gatti, em Campinas, e não conseguiu fazer a última sessão por falta de medicamento.| Foto: Arquivo pessoal/Adriana Amorim

Segundo ela, um dia antes das sessões, os pacientes fazem coleta de exames. Ela esteve no hospital no dia 23 de abril, mas não foi avisada mesmo assim.

"É perigoso não ter a medicação correta no tempo correto. Meu tratamento está atrasado. Estou me sentindo lesada, estão fazendo pouco caso da minha doença. Não acho justo. Não é fácil receber o diagnóstico, precisar do tratamento e não receber o tratamento. É revoltante, muito revoltante".
Adriana diz que registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil por negligência da Prefeitura de Campinas e da direção do Hospital Municipal Dr. Mário Gatti.

Após a publicação da reportagem, Adriana recebeu contato da Prefeitura reagendando a sessão dela de quimioterapia para esta sexta (26), já que o medicamento dela foi reposto nesta quinta.

Apesar do que aconteceu com Adriana, a administração municipal explicou que a orientação da Rede Mário Gatti é que os pacientes "sejam avisados com antecedência sempre que houver alguma intercorrência com relação aos tratamentos realizados nas unidades hospitalares".

Dentre os pacientes que realizam a quimioterapia no Mário Gatti, os que dependem de substâncias que não estão em falta não tiveram as sessões afetadas.

"A composição da quimioterapia varia de acordo com o tipo de doença desenvolvida por cada paciente, ou seja, foi possível manter o tratamento daqueles que não dependiam das drogas em falta", informou a Prefeitura.

Fonte: G1