segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Saúde na UTI: Nos hospitais faltam leitos, medicamentos e insumos para cirurgias

Pelos corredores do HGE, pacientes aguardam durante dias o atendimento esperado

No Hospital Geral do Estado, falta de macas prejudica no atendimento | Foto: José Feitosa

Sufoco e desespero resumem o drama de quem depende dos hospitais da rede estadual. Os que necessitam de cirurgia eletiva não tem nem previsão do procedimento ser realizado, conforme atesta o Conselho Regional de Saúde ao confirmar a "crise" na saúde pública.

No Hemocentro de Alagoas paredes mofadas, problemas de infiltrações, falta de insumos e irregularidades na rede elétrica. No Hospital Hélvio Auto alguns exames estão suspensos como endoscopia e colonoscopia por falta de uma fita que custa R$ 150.

Na última quinta-feira, no Hospital Geral do Estado, o esforço dos profissionais não foram suficientes para assegurar a normalidade da operacionalidade. Pelos corredores cenas dramáticas de pacientes em macas e enfermarias lotadas.

Isto ocorre no momento que o Estado investe mais de R$ 180 milhões do Fundo de Combate a Pobreza (Fecoep) e recursos próprios na construção de cinco hospitais na capital e interior do Estado.

O atendimento é precário no Hospital Geral do Estado e no Hospital de Emergência do Agreste - os dois maiores prontos socorros de Alagoas. O HGE, por exemplo, atende cerca de 13 mil usuários/mês e nos finais de semanas mais de 600. O drama pode afetar qualquer pessoa independentemente da condição social.

Nas duas unidades, segundo médicos e auxiliares, faltam tudo: desde profissionais, medicamentos, insumos para cirurgias, leitos adequados para pacientes como o trabalhador autônomo João Claudionor Aarão de Oliveira, de 56 anos, vitima de Acidente Vascular Cerebral - AVC hemorrágico. Ele ficou cinco dias numa maca de ambulância, no corredor do hospital.

Transtornos

A família de Claudionor mora no distrito de Rio Novo. No último dia nove, ele se sentiu mal e foi levado para o HGE e até o último dia 13 estava internado numa maca de ambulância. A mulher do trabalhador, Ivana Aarão da Silva, se revezava com os filhos no corredor onde o marido estava.

"A situação do meu marido é semelhante à de muita gente que está em macas e no corredor. Ele espera uma vaga para ser levado ao local de tratamento. O destino dele está nas mãos de Deus".

Familiares de paciente internado no HGE relatam precariedade do local | Foto: José Ronaldo

O filho mais velho do casal, Ivan Aarão de Oliveira, de 23 anos, disse que seu pai precisava de atendimento especializado e percebeu que havia poucos profissionais para atender a demanda do pessoal que está no corredor. "Tem muita gente em situação grave e poucos médicos. Meu pai está no soro. Não sabemos a real situação dele", lamentou o rapaz.
Enquanto a família de Claudionor Oliveira conversava com a reportagem da Gazeta, seis ambulâncias do Samu e de prefeituras aguardavam a liberação de macas para voltar a socorrer outras pessoas. O motorista da ambulância da cidade de Cajueiro (distante 75 quilômetros) Antônio Tomé trouxe um doente e ficou mais de seis horas "preso" no hospital à espera da liberação da maca.

"O paciente ainda está na sala de espera e não sabe se vai ser atendido. O problema é de superlotação e falta de espaço na enfermaria", disse o motorista.

Quatro motoristas e profissionais de saúde das ambulâncias do Samu também se queixavam da falta de leitos nos hospitais da rede estadual. Eles não querem os nomes publicados, mas disseram que a situação piora nos fins de semana. O HGE e a unidade do Agreste ficam superlotadas. Os profissionais dizem que o hospital não pode fechar as portas e os trabalhadores fazem o que podem.

A situação começa a melhorar a partir das terças, quando as ambulâncias das Unidades de Transporte Sanitário da Secretaria Estadual de Saúde fazem a transferência dos pacientes para as unidades intermediárias de saúde e hospitais de apoio, na capital e interior do estado.

Doação

Em meio a tantas reclamações de pacientes, parentes e de profissionais, uma boa notícia foi anunciada pelo procurador geral de Justícia, Alfredo Gaspar de Mendonça, e ajuda a abastecer os estoques das farmácias das unidades hospitalares. O chefe do Ministério Público confirmou a liberação de cinco mil medicamentos e insumos para os hospitais públicos do Estado.

Na última quinta feira, os juízes da 17ª Vara Criminal da Capital emitiram um parecer favorável ao requerimento do Ministério Público Estadual de adjudicação (ato judicial que dá a posse e a propriedade de determinados bens) e autorizou a liberação dos remédios e insumos apreendidos na operação Placebo, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial em Sonegação Fiscal e aos Crimes contra a Ordem Tributária, Econômica e Conexos, em julho passado.

Médicos cobram valorização profissional

O estado está construindo cinco hospitais: dois em Maceió, um em Porto Calvo, outro em União dos Palmares e mais um em Delmiro Gouveia. Mas, não desenvolve política de valorização dos recursos humanos. A avaliação é de líderes médicos, como o presidente do Sindicato dos Profissionais, Marcos Holanda e do ex-presidente da entidade, Wellington Galvão.

"Mais de 70% dos servidores da saúde são prestadores de serviços. Só de médicos temos mil com contratos precarizados", revelou o médico Wellington Galvão. "O estado não faz concurso, não convoca a reserva técnica e a gestão estadual demonstra disposição para precarizar, entregar o setor para as Organizações Sociais (OS), como têm feito com as Unidades de Pronto Atendimentos (Upas)". Galvão revelou ainda que a falta de insumos, medicamentos e de leitos também é um problema antigo principalmente nos serviços de urgências e emergências.

Outro detalhe grave, observado pelo ex- sindicalista, é a falta de qualificação de pessoal para trabalhar na emergência. "Não basta se formar em medicina para trabalhar na emergência ou na urgência de hospital. É necessário curso de qualificação. A gente observa também que não houve investimentos na qualificação do recursos humanos nos últimos 15 anos. Isto deixa o serviço público da saúde como se fosse um bico".

Cremal critica precarização da saúde pública 

Presidente do Cremal critica precarização da saúde pública | Foto: José Feitosa

"A saúde pública de Alagoas está péssima. Nos últimos anos vem caindo a qualidade do atendimento e não parou de piorar". A avaliação é do presidente do Conselho Regional de Medicina de Alagoas (Cremal), médico Fernando de Araújo Pedrosa. Sem esconder a tristeza com a situação da saúde pública, ele disse que a superlotação das unidades públicas é um dos problemas.
"A falta de estruturação é o primeiro sintoma grave do setor que sofre com carência de insumos, profissionais e de leitos", revela.

Para atender a maioria dos três milhões de alagoanos que não podem ter plano de saúde privado, o Estado dispõe de pouco mais de 5 mil médicos e 6.462 leitos. A média é de um médico para grupo de mil pacientes. Mas, a questão aqui não é numérica. O presidente do Cremal acredita que poderia ter número menor de médicos e melhor assistência à população, se o sistema estivesse estruturado.

"A questão que precisa ser resolvida é a dos profissionais em seus locais de trabalho com equipamentos, insumos e leitos hospitalares que faltam. Não adianta a gente ter milhões de médicos para trabalhar em hospitais carentes de infraestrutura fundamentais".

Os hospitais trabalham com procedimentos de baixa, média e alta complexidade. Na questão de leito hospitalar o problema se agrava na média complexidade. As pessoas precisam de procedimentos e não conseguem.

"Se hoje um paciente necessitar fazer cirurgia de vesícula pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não temos como fazer porque a remuneração é baixíssima tanto para o profissional como para a unidade hospitalar. Quando a gente percebe que o Estado se propõe fazer mutirões de cirurgias de vesícula ou de outros procedimentos significa que fará remuneração extra para os hospitais e profissionais. Isto é um sinal de que o sistema não anda bem. Por outro lado, o sistema não é programado para funcionar em sistema de mutirões. A rotina é o procedimento eletivo, ou seja, aquele caso que a pessoa está doente, vai ao médico que faz o diagnóstico e marca o procedimento em calendário hábil. Isto hoje esta difícil no Estado", relata Fernando Pedrosa.

Quando se fala em tratamento de urgência e emergência, o Conselho de Medicina também diagnostica mais insuficiência. Considera o problema das superlotações como "absurdas", reprova a situação dois pacientes deitados pelos corredores ou recebendo tratamento improvisado em macas espalhadas pelo chão. "Esta é uma situação deprimente, triste e o que mais nos incomoda: esta não é uma circunstância nova. O problema se arrasta ha vários anos e com melhoras esporádicas".

Alagoas tem 6,4 mil leitos do SUS

De acordo com o Cadastro dos Estabelecimentos de Saúde (CNES), o estado possui 6.462 leitos hospitalares para atender os 3,3 milhões de alagoanos. Deste total, 4.701 são vinculados ao SUS, divididos entre as gestões federal, estadual, municipais e contratualizadas. A rede estadual de saúde dispõe de 761 leitos e mais 301 contratualizados, totalizado 1.062 leitos.
Ao explicar o déficit de leitos na rede pública estadual, o secretário de Saúde do Estado, Christian Teixeira, lembrou que há mais de 40 anos não se construía hospital. No ano passado foram abertos 26 novos leitos na maternidade escola Santa Mônica e em março passado foram contratualizados 127 novos leitos em hospitais filantrópicos. Com isso, aumentou-se para 301 o número de leitos de retaguarda para atender a demanda do HGE.

No mês passado aumentou também de 40 para 120 ou número de leitos do Hospital de Emergência do Agreste. O secretário observa que, nos próximos meses, terá mais 676 novos leitos com a inauguração dos hospitais da Mulher (127 leitos) e Metropolitano (180 leitos), ambos em Maceió); Regional Norte com 123 leitos, em Porto Calvo; Regional da Mata, em União dos Palmares, com mais 123 leitos; e Regional do Sertão, em Delmiro Gouveia, que terá também 123 leitos.

Além disso, a rede expandirá o atendimento pré-hospitalar com a construção de duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) nos bairros do Tabuleiro do Martins e Cruz das Almas, também em Maceió.

Ao ser questionado se os novos empreendimentos resolvem o problema de falta de leitos na maternidade Santa Mônica e no HGE, o secretário responde que a saúde é formada por uma rede de unidades hospitalares, onde cada hospital tem a sua especificidade e um perfil específico para atendimento. Como o HGE tem o perfil de urgência e emergência, especializado no atendimento de traumatizados (vítimas de acidentes de trânsito e de armas de fogo e de branca), a construção de novos hospitais, UPAs estão inclusas nessa rede de ações e contribuirão para reduzir o fluxo de atendimentos no HGE". Assim, o Christian acredita que o hospital geral atenderá somente os pacientes que apresentem o perfil daquela unidade.

O HGE tem 275 leitos habilitados pelo Ministério da Saúde e mais 117 não habilitados. As macas são utilizadas porque, segundo o secretário de Saúde, o HGE é uma unidade porta aberta, 100% SUS, e que acolhe a todos, ainda que sem leitos disponíveis. Situação que, de acordo com ele, deve ser sanada com a abertura dos Hospitais da Mulher, Metropolitano e os Regionais do Norte, Zona da Mata e Alto Sertão.

E, como suspeitavam os sindicalistas, ele disse que "a única diferença para as demais unidades de saúde estaduais já existentes é que serão gerenciadas por Organizações Sociais (OSs), subordinadas à Sesau, assim como acontece com êxito, há mais de duas décadas, em São Paulo e, mais recentemente, em Maceió, com a administração das UPAs, que são um modelo de eficiência e qualidade no atendimento aos usuários do SUS. Para isso, a Lei 7.777/2016, aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado (ALE), dispõe sobre o Programa Estadual de Organizações Sociais (OSs) no âmbito dos serviços de interesse público, ligados à educação, ensino, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e institucional, proteção e preservação do meio ambiente, assim como a saúde, trabalho, ação social, cultura, desporto e agropecuária".

Hoje, a Secretaria de Saúde tem na rede estadual 5.282 servidores efetivos, 160 comissionados e mais 2.800 servidores em cargos de comissão. Para as novas unidades há um estudo que aponta a necessidade de 1.190 profissionais no hospital da mulher, 1.336 profissionais no hospital de Porto Calvo e 1.986 profissionais para o hospital Metropolitano.

A construção dos novos hospitais envolvem a aplicação de recursos próprios e do Fundo de Erradicação da Pobres (Fecoep), que passam dos R$ 188 milhões. 

HGE atendeu 81 mil usuários em 2018

O Hospital Geral do Estado ao longo dos últimos anos recebeu obras paliativas para atender a demanda que não para de crescer. O maior ponto socorro do estado atende média 13 mil usuários/mês. Somente os finais de semana geralmente são acolhidas cerca de 650 pessoas. Em 2017, foram realizados 147.297 atendimentos e em 2018 já são mais de 81 mil.

Para dar conta do atendimento tem 2.339 servidores, entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares de serviços gerais, auxiliares administrativos, técnicos administrativos e outros profissionais. A gerente do HGE, Marta Celeste, garante que o número de funcionários é suficiente para a demanda. Não há previsão de concurso público para a unidade.

Com relação a falta de leitos e as reclamações dos pacientes que são atendidos em macas, ela explicou que "o HGE possui 275 leitos habilitados pelo Ministério da Saúde e mais 117 não habilitados. A média de atendimentos por dia não muda, nos dias de sábado e domingo, tampouco há diminuição no número de profissionais. "Sendo assim, a variação no número de atendimentos pode acontecer a qualquer momento e é dever do hospital acolher todos, mesmo com todas as vagas preenchidas, uma vez que sua natureza é ser de portas abertas".

A médica Marta Celeste acrescentou que, para viabilizar novos leitos, foram contratados mais 127 leitos de retaguarda, passando, agora, para 301 disponíveis em outras unidades de saúde; e para ajudar nas transferências, o HGE possui três ambulâncias de transporte sanitário para uso exclusivo.

Mesmo assim, persiste o atendimento nos corredores. Sobre isso, a gestora do Hospital Geral explicou que a unidade é de urgência e emergência, único em Alagoas através do SUS e referência no atendimento de média e alta complexidade a vítimas de queimaduras, doenças coronarianas e vasculares, Acidente Vascular Cerebral (AVC), traumas, ortopedia e pediatria - dia e noite.

"Com toda essa alta complexidade assistencial, sempre com suas portas abertas, é provável que a demanda ultrapasse o limite de acomodações, até porque alguns exames de urgência somente são realizados no HGE, como a endoscopia, e muitos munícipes encontram apenas no HGE o poder de resolubilidade que necessitam".

Explicou que existem doentes e familiares que fazem questão de ir ao HGE. "Vale acrescentar ainda que, devido à falta de serviços mais qualificados nos municípios, há ambulâncias que trazem o doente e esperam a saída para o retorno à cidade; e para reorganizar o fluxo de internamento, o HGE estendeu o funcionamento da regulação para as 23h, permitindo que as transferências aconteçam diariamente até meia noite".

Com relação as reclamações dos familiares do paciente José Claudionor Aarão de Oliveira, 56 anos, do Rio Novo, a coordenadora do hospital explicou que conforme o sistema de internamento do hospital, o usuário chegou ao HGE no dia 9 de agosto de 2018, às 14h35, e nesse mesmo dia ele foi internado na Área Amarela.

No HGE, ele foi submetido a exames que diagnosticaram o AVC do tipo hemorrágico. Na Área Amarela recebeu os cuidados do neurocirurgião e neurologista clínico até ser transferido para um dos hospitais de retaguarda na última terça-feira.

Por: Arnaldo Ferreira | Fonte: Portal Gazetaweb.com