terça-feira, 3 de julho de 2018

Hospital Federal de Bonsucesso não tem morfina para pacientes com câncer

Neusa ajuda Valdir a se alimentar: para ele receber alta, médico precisou mudar o remédio para dor, pois não havia morfina

Após 12 dias internado numa maca no corredor da emergência do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), Valdir Ribeiro Muniz, de 55 anos, chora ao saber que não poderá mais ir para casa porque não há na farmácia da unidade morfina em comprimido. Ele acabara de receber alta médica, mas sem a forte medicação, não suportaria as dores causadas pela metástase óssea. Ele implora. Quer passar a noite em sua cama. Um médico, então, decide mudar a medicação para dor por uma que o hospital tem para fornecer.

— Vamos para casa — confirma ele, olhando para a mulher, Neusa Ferreira, que acompanhava o marido.

A falta de medicamentos e insumos no HFB tem provocado a suspensão de cirurgias e, desde segunda-feira, ameaça a realização de transplantes de rim. Médicos denunciam que, até o início da noite desta terça-feira, havia no hospital apenas seis frascos de thymoglobulina, um medicamento essencial para evitar a rejeição do órgão.

— Esses seis frascos serão usados por uma paciente internada. À noite, chegaram 20 frascos emprestados, que podem garantir apenas um transplante, mas não nos permite trabalhar com a segurança necessária em função de serem pacientes de alto risco — disse um médico que pediu para não ser identificado.

Essa dificuldade em manter a segurança do paciente em função das precariedades do hospital, que ainda sofre com a carência de profissionais de saúde, foi o que levou o médico a condicionar a alta de Valdir ao seu retorno à unidade em dois dias.

— O médico explicou que, para dar alta, teve que trocar o remédio e não sabe se as dores ficarão sob controle. Vamos ter que voltar para ver se a dose está adequada. É um remédio muito forte — disse Neusa, que encara três horas de ônibus com o marido doente para ir de Ilha de Guaratiba, onde moram, até o HFB.

Além de não ter morfina na farmácia do HFB, a unidade está sem talonários de receitas especiais para dar aos pacientes que têm condições de comprar o remédio. Não era o caso de Neusa:

— Não tenho como comprar. Vou ter que ouvi-lo gritar a noite toda. Tem noites que vou dormir no quintal, porque não aguento ouvir ele chorando e gritando.

O câncer atingiu primeiro o intestino de Valdir e ele foi operado em maio. Mas começou a ter muitas dores nas pernas.

— Os médicos viram que havia dado metástase nos ossos. Ele reclama de dor no corpo todo. Não posso levá-lo para casa sem um remédio para tirar a dor dele — diz Neusa.

A receita para o paciente retirar morfina na farmácia do HFB: não tem

Sentada há sete dias, sem cirurgia

Há sete dias, uma mulher está sentada numa poltrona na emergência do HFB aguardando uma cirurgia para retirada de cálculo nos rins. As dores quase a fazem perder os sentidos.

A cirurgia não é realizada porque não há cateter uretral no hospital. Os médicos registraram a falta do material no prontuário da paciente e recomendaram a transferência dela para outra unidade.

Não é um caso isolado. Nesta segunda-feira, o presidente do corpo clínico do hospital apresentou uma lista com 27 insumos em falta no centro cirúrgico, incluindo cinco tipos de fios de sutura, além de dez medicações, numa reunião realizada com representantes da unidade e o Cremerj.

— A primeira operação que estava agendada para a manhã de segunda-feira foi suspensa porque não havia cateter para peridural (anestesia) — afirmou Baltazar Fernandes, presidente do corpo clínico do hospital.

O defensor público federal Daniel Macedo afirmou nesta terça-feira que vai enviar um ofício, dando prazo de 72 horas para a diretora da unidade, Luana Camargo da Silva, explicar as razões do desabastecimento e se algum paciente foi prejudicado:

— O Bonsucesso recebe R$ 170 milhões para fazer sua autogestão e não consegue ter morfina para pacientes com câncer.

Num período de 24 horas, entre segunda e terça-feira, a emergência registrou quatro mortes, 10% do total de pacientes internados. A direção do HFB alega que é necessário avaliar caso a caso.

Como o EXTRA revelou na última terça-feira, um requerimento para a confecção de 300 talonários de receituário de remédios controlados foi apresentado pelo chefe da Divisão Médica do HFB em 23 de maio. No documento, ele relata a urgência do pedido. A direção do hospital, porém, afirma que os talões foram entregues no próprio dia.

A direção do HFB informou também que “todos os transplantes agendados ocorrem conforme o previsto e que todo o aparato necessário para as cirurgias tem sido providenciado”.

Sobre a substituição de medicamento para o paciente que precisava de morfina para ter alta, a unidade alega que esse procedimento “segue os critérios estabelecidos pelo profissional de saúde que acompanha seu tratamento e está em conformidade com a linha de cuidado traçada por ele, não acarretando, portanto, nenhum prejuízo a sua recuperação”.

A direção do hospital informou que todo o aparato necessário para o procedimento cirúrgico da paciente que aguarda há sete dias sentada na emergência com cálculo renal já se encontra disponibilizado e a paciente será operada. Não há informação da data em que isso vai acontecer.

Por: Flávia Junqueira | Fonte: Extra