sexta-feira, 22 de junho de 2018

Faltam insumos e remédios no Hospital de Bonsucesso, dizem servidores

José Inácio está internado esperando remédio | Foto: reprodução

Maria Eroltides Santos se lembra de quando recebeu do médico, no Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), o diagnóstico e a orientação: os nove nódulos que ela tinha na tireoide precisavam ser removidos cirurgicamente. O profissional explicou que, no entanto, ela teria que procurar outra unidade de saúde, já que lá não havia material para a operação. A cena ocorreu 2013, mas Maria só foi submetida à cirurgia na última segunda-feira, depois de peregrinar, nesse período de cinco anos, por outros hospitais e até pela Justiça. Mas, de lá para cá, as carências no HFB só aumentaram.

Uma assembleia de servidores realizada anteontem na unidade denunciou a falta de materiais básicos e remédios para o cuidado dos pacientes. O médico do HFB Júlio Noronha diz que esse problema se agravou nos últimos três meses. Segundo ele, a direção do hospital mandou um ofício no dia 12 de junho perguntando às clínicas o que faltava, recebeu as respostas, mas não atenderam às demandas. Quem vem sofrendo são os pacientes.

— Meu marido foi internado há dois meses, com indicação cirúrgia, e estava apto a ser operado. Mas como o hospital não tinha material, demorou, e ele acabou tendo uma ferida no pé, que infeccionou. Agora tem que tratar esse problema para, então, fazer uma angiografia antes de operar o coração — conta Marlene Duarte, de 56 anos, que visitava Luiz Carlos Azevedo, de 54.

O paciente José Inácio da Silva, de 60 anos, também está internado esperando tratamento. Ele passou dois anos com uma dor forte na barriga. Depois de muito investigar, descobriu há um mês, no Hospital de Bonsucesso, que tinha uma doença rara chamada amiloidose. Mas o tratamento não começou até agora por falta do medicamento indicado.

— Ele está cada dia pior. Soubemos que o Hospital Federal da Lagoa tem esse remédio, mas não chegou aqui até agora por burocracia — diz a mulher de José, Fátima Cardoso.

‘Trato linfoma sem um dos remédios da quimio’

— Fui diagnosticada com um linfoma no tórax no final do ano passado. Eu estava muito fraca, com uma anemia muito forte e muito abaixo do peso. Sou de Belford Roxo e passei dois anos até conseguir uma consulta no Hospital de Bonsucesso. Lá que eu tive o meu diagnóstico e começou o tratamento. Já estou fazendo o tratamento há cinco meses. Nos dois primeiros meses, a medicação estava completa. Nos dois seguintes, faltou faltou uma medicação do coquetel, o Bleomicina. O médico passou uma outra droga para o lugar dessa, mas também não tinha. Não sei o que pode acontecer, mas espero me recuperar mesmo sem esse remédio — disse Eliana Oliveira, paciente de 37 anos do Hospital de Bonsucesso.

O que falta

Médicos da unidade afirmam que insumos básicos como luva cirúrgica, luva de procedimento, coletor de urina, mascara cirúrgica, seringa , escova para o cirurgião lavar as mãos, sondas e até fio cirúrgico.

Medicamentos

Alguns remédios também estão em falta, segundo a denúncia. Entre eles, vários medicamentos para quimioterapia e morfina. “Os pacientes com câncer internados não tem nada a ser feito e estão morrendo de dor”, diz um comunicado feito por servidores.

Médicos

Julio Noronha afirmou que os problemas se acumulam no hospital desde o fim de 2016, quando acabaram as reposições dos médicos. Só de anestesista, diz ele, faltam 40 para o corpo médico.

Hospital nega desabastecimento

As críticas dos servidores são direcionadas à atual diretora da unidade, Luana Camargo da Silva, que assumiu o cargo há três meses. Em nota, o Hospital Federal de Bonsucesso, que é subordinado ao Ministério da Saúde, informou que se reuniu na tarde de ontem com os representantes do Corpo Clínico para tomar conhecimento das resoluções tomadas na assembleia realizada no dia anterior.

O hospital também afirmou que, na lista de medicamentos e insumos apresentada para conferência, há itens que se encontram em estoque e outros que estão em processo de entrega pelos fornecedores. “O que não caracteriza desabastecimento”, alegou a nota, que prossegue: “Na eventualidade de haver a necessidade de algum material enquanto não se conclui a sua reposição, o mesmo é obtido através de empréstimo com outros hospitais da rede”.

O Extra perguntou sobre todos os pacientes citados na reportagem, e o hospital afirmou que a Direção-Geral irá averiguar junto às clínicas que prestam assistência aos mesmos acerca de suas carências. “Vale lembrar que o Hospital conta com uma Ouvidoria para que pacientes encaminhem suas reclamações”, afirmou a nota oficial.

Por: Bruno Alfano | Fonte: Extra