sexta-feira, 4 de maio de 2018

Cerca de 25% dos medicamentos de alto custo estão em falta no DF

Um quarto dos 200 medicamentos de alto custo oferecidos nas três farmácias do GDF está em falta. Secretaria garante que todos os processos de compra estão em dia, mas admite não haver prazo para eles chegarem e ser distribuídos

Denise, ao lado do marido, Décio, depende de remédios para manter o rim funcionando, mas nem sempre encontra | Foto: Ed Alves/CB/D.A Press

As filas em frente às Farmácias de Alto Custo são rotineiras. Pessoas em tratamento e familiares vão em busca de remédios caros e com distribuição gratuita do governo, mas nem sempre os encontram.

A capital tem três unidades do serviço: Asa Sul, Gama e Ceilândia. Todas estão com estoques vazios, segundo documentos da Secretaria de Saúde. Na Asa Sul, há 43 itens em falta. Em Ceilândia e no Gama, 46 em cada.

Os remédios com estoque zerado representam 25% dos 200 tipos oferecidos pelo governo. Faltam medicamentos para doenças como anemia associada à insuficiência renal crônica, medicamento que evita a rejeição de órgãos transplantados, artrite reumatoide, antiasmático, leucemia, doenças inflamatórias do intestino, antidepressivos, tratamento da Doença de Parkinson, para doenças pulmonares, esquizofrenia e para tratamento de distúrbios psicóticos.

São necessários R$ 270 milhões para comprar os medicamentos em 2018. Soma-se a este valor cerca de R$ 15 milhões desembolsados pelo Ministério da Saúde para a manutenção do serviço. O Executivo local garante que todos os processos de compra estão em dia, mas não há prazo para os estoques serem regularizados.

O Ministério da Saúde distribui 89 medicamentos ao Distrito Federal. Segundo a pasta, as Secretarias de Saúde são responsáveis pela programação, armazenamento, distribuição e dispensação para tratamento das doenças. O governo federal diz que investiu, em 2017, R$ 735 milhões na área em todo o Brasil, mas não detalhou quanto foi aplicado especificamente no DF.

Processo burocrático

Desde que passou por um transplante de rins em 2014, a dona de casa Denise Coelho da Rocha, 41 anos, depende de dois remédios para manter o órgão funcionando. Ela perdeu as contas de quantas vezes foi buscar o medicamento e não encontrou. “É triste voltar para casa assim. Bate uma apreensão!”, diz a moradora de Sobradinho 2. O tratamento de Denise custa R$ 3 mil mensais. O salário do marido, o aposentado Décio de Oliveira, 69, é insufuciente.

Há quem precise recorrer à Justiça, como Irene Francisca, 78, que sofre de fibrose pulmonar — doença respiratória crônica e progressiva. O tratamento custa R$ 18 mil. Como o medicamento não faz parte da lista padrão da Secretaria de Saúde, o filho dela, Nei Cezar Santos, 45, recorre à Defensoria Pública a cada três meses.

Na última vez em que a família conseguiu o medicamento, eles iniciaram o processo em setembro e concluíram em dezembro do ano passado. Agora, o perrengue começou em fevereiro. “Este é um medicamento de uso contínuo. Sem ele, minha mãe tosse muito, tem dificuldades respiratórias severas e vê sua qualidade de vida diminuir. Esse processo dificulta o tratamento”, reclama Nei.

Para Flávio Goulart, professor de medicina e pesquisador do Observatório da Saúde do DF, a solução do problema envolve vários setores. Ele cita o planejamento e a falta de orçamento como combustíveis para acentuar as falhas na distribuição de remédios. “Muitas vezes existe a dificuldade de planejar e não ter orçamento para comprar. É preciso ter dinheiro para finalizar o processo”, explica.

Três perguntas

Marília Ferrari Machado, gerente de Programação de Medicamentos e Insumos para Laboratórios do DF

Por que os medicamentos estão em falta?

Temos várias situações. Há medicamentos que o fornecedor não entregou o empenho nem de 2017 e já está em atraso o de 2018. Temos remédios que a ata (de compra) foi publicada semana passada. Alguns estamos aguardando entrega dentro do prazo. Alguns estão em processo de recebimento. E há dois casos que o fornecedor pediu mais tempo porque houve problemas na fabricação. Além disso, temos remédios que os pregões fracassaram e pedimos a compra emergencial.

A Secretaria de Saúde não consegue planejar melhor as compras?

Quando fazemos o pedido, o fornecedor tem até 30 dias para entregar. Isso não tem como tornar mais célere, porque é um acordo contratual. Há problemas que estão fora da nossa governabilidade.

O que a senhora falaria para o paciente que procura e não encontra o remédio na farmácia?

O que a gente pode fazer já fizemos, que é colocar o medicamento em processo de compra.

Por: Otávio Augusto | Fonte: Correio Braziliense