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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Remédios vivos: a nova aposta da medicina

Medicamentos de última geração mudam a vida dos pacientes

Foto: Shutterstock

Falar que eles são o futuro da ciência não é muito adequado, afinal, eles já são uma realidade no mundo e no Brasil também. Mas os medicamentos biológicos são o que há de mais avançado na Medicina e continuam a melhor aposta dos pesquisadores da área, além de uma esperança de tratamento para várias doenças crônicas.

“Eles são a mais nova geração de medicamentos no mundo. São um grande avanço. Não são drogas, não causam dependência, têm baixos efeitos colaterais e exigem baixas doses para fazer efeito”, enumera o alergista José Carlos Perini.

Os biofármacos, como também são chamados, são produzidos de forma muito diferente dos remédios convencionais. A fabricação é complexa, a partir da manipulação genética de organismos vivos, e, por isso, são mais eficazes. E também muito mais caros.

No Brasil, milhares de pessoas já utilizam esses medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a maior parte deles vinda de fora. “Eles respondem por 51% do orçamento do Ministério da Saúde. Mas há multinacionais no país produzindo os biológicos. Estamos investindo em fábricas. O objetivo é a nacionalização da tecnologia, o que vai gerar, de início, 40% de economia”, diz Marco Sireman, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde.

No Espírito Santo, pelo menos seis mil pessoas fazem uso de biofármacos sem pagar nada por isso. “São cerca de 50 tipos diferentes de biológicos para uma gama de doenças entre elas artrite reumatoide, diabetes, asma, hepatite”, cita a gerente de Assistência Farmacêutica da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), Gabrieli Fernandes Freitas.

Os biológicos não são vendidos em farmácias e também não podem ser ingeridos oralmente. A maioria é de uso subcutâneo, com aplicação feita em ambulatórios de hospitais.

Tratamento

É o caso do omalizumabe, indicado para tratamento de asma e urticária. Ao custo de R$ 2,5 mil uma única injeção, o medicamento é oferecido para cerca de 80 pacientes, entre crianças e adultos, que sofrem de quadros graves dessas doenças em um programa que existe desde o ano 2000 na Santa Casa de Misericórdia, em Vitória.

“Estamos na era da Medicina de precisão. Os imunobiológicos tem alta eficácia, contribuem para o controle da doença e melhoram significativamente a qualidade de vida dos pacientes. O custo é alto, mas promovem uma queda no número de hospitalizações, idas a emergência e consultas não agendadas, o que representa economia para o Estado”, comenta a alergista Faradiba Sarquis Serpa, coordenadora do Centro de Referência em Asma e Urticária Crônica da Santa Casa.

Os medicamentos biológicos também estão transformando a vida de pacientes do Serviço de Reumatologia do Hospital das Clínicas, na Capital, que atende a aproximadamente 3 mil pessoas por ano.

“Nosso centro de infusão de imunobiológicos tem parceria desde 2003 com a Sesa. Foi o primeiro centro público brasileiro, antes do Estado de São Paulo. Fazemos também o monitoramento de eventos adversos, acondicionamento adequado do medicamento e compartilhamento de ampolas, gerando uma economia de cerca de R$ 900 mil ao ano. Atualmente são 600 pacientes em atendimento e cerca de 2.600 infusões ao ano”, explica a coordenadora do serviço, a reumatologista Valéria Valim.

Para ela, os biológicos são medicamentos revolucionários. “Eles atuam bloqueando receptores na superfície celular e inibindo a inflamação que caracteriza as doenças autoimunes. Fazem isso de maneira pontual, podendo-se escolher um alvo que é diferente em cada doença e também de uma pessoa para outra”, observa.

Apesar de tantos benefícios, os biológicos não são para qualquer um. “Eles não são a salvação para todos os pacientes. É para quem já passou por vários tratamentos e não conseguiu controlar a doença. Para muitos doentes, há medicações mais simples que funcionam. Para ter acesso aos biológicos, há um diagnóstico muito bem feito, um protocolo a ser seguido”, destaca Gabrieli Fernandes.

"Nunca mais tive crise", diz paciente

Há mais de 20 anos, ela convive com uma urticária crônica. “Perdi meu pai e minha mãe com uma diferença de 15 dias. Logo apareceu a doença”, conta Luciene Taffner, 62 anos.

A urticária é uma doença que causa lesões na pele, que se espalham pelo corpo e geram muita coceira. Para controlar o problema, Luciene fazia uso diário corticoides, uma droga anti-inflamatória que pode, quando usada por tempo prolongado, causar diversos efeitos colaterais. “Eram dois comprimidos por dia pois não conseguia ficar bem só com os antialérgicos. Mas sempre tinha crises. E vivia inchada, com colesterol alto”, relata.

Luciene tomando sua dose mensal do medicamento: "Minha vida mudou" | Foto: Marcelo Prest

Isso mudou há pouco mais de um ano, quando Luciene passou a fazer tratamento no Programa de Asma e Urticária da Santa Casa de Misericórdia, em Vitória, e a usar um medicamento biológico aplicado de forma subcutânea uma vez por mês. “Minha vida mudou totalmente. Nunca mais tive crise de urticária. E desinchei tanto que perdi 11 quilos”, empolga-se.

Critérios

Nem todo mundo com alergia grave pode entrar no programa, como explica a coordenadora Faradiba Sarquis. “Existem critérios específicos para prescrição. No caso do asmático grave, o uso está indicado para o paciente que não conseguiu controlar a doença com a terapia convencional. São cinco etapas de tratamento, e se na quarta etapa a asma ainda não estiver controlada, o paciente pode ser um candidato a fazer uso de imunobiológico”.

O mesmo vale para pacientes com urticária crônica espontânea. “Está indicado nos casos de urticária com duração maior que seis semanas, nos quais não se encontrou causa e que não atingiram o controle com uso de anti-histamínicos em dose até quadruplicada”, diz Faradiba.

A resposta ao tratamento com esse tipo de medicamento, segundo ela, é rápida. “Na asma, a resposta é observada ao longo das primeiras 16 semanas de tratamento. Na urticária, na maioria das vezes, nas 4 primeiras semanas já observamos melhora significativa dos sintomas”.

No caso dos filhos da autônoma Eliana Moreira de Paula, 41 anos, os biológicos significaram praticamente o fim de uma rotina marcada por internações hospitalares. Os dois meninos dela, Guilherme, de 13 anos, e Igor, de 9, são asmáticos graves desde que nasceram.

“Eles viviam trocando de medicamentos. E precisavam ser internados duas, três vezes ao ano. Algumas internações duravam quase 20 dias. Era desesperador”, lembra ela.

Sem crise

Há três anos, desde que começou o tratamento na Santa Casa, Guilherme ficou curado. “Ele está 100%. Não tem cansaço, não tem tosse, nem crise”, conta a mãe.

Igor, que iniciou o tratamento com o mesmo imunobiológico logo depois do irmão, já não pisa há muito tempo em um hospital. “Ele não aguentava mais hospital. Era todo furado. Ainda tem cansaço, uma crise ou outra de asma. Mas na minha opinião ele melhorou 80%”, diz Eliana.

Entenda os biológicos

O que são

São medicamentos inovadores, a partir da modificação genética de células vivas, ao contrário dos medicamentos convencionais, que são produzidos por síntese química. Eles não podem ser ingeridos, pois seriam destruídos pelo sistema digestivo. São, portanto, injetáveis ou inaláveis.

Custo

A complexidade da fabricação eleva o custo desses produtos, que chegam a R$ 10 mil uma única ampola.

O que existe no mercado

A maioria se destina principalmente à área de oncologia e ao tratamento de certas formas de artrite reumatoide e outras doenças autoimunes e inflamatórias. Centenas se encontram na fase final do processo de aprovação.

Sem genéricos

Por terem uma produção altamente complexa, esses medicamentos não podem ser replicados de forma idêntica. Por isso, não existem genéricos no mercado. O que há são os biossimilares, que são no máximo altamente similares e, para isso, precisam passar por testes clínicos detalhados e complexos. Mas o assunto é polêmico. A regulamentação dos biossimilares não está muito definida ainda.

No Brasil

Representam 51% das despesas com compra de medicamentos, um custo de R$ 3,5 bilhões ao ano.

Informações: Pfizer, Ministério da Saúde e Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma)